Por Nilsa Maria de souza
Ver essa peça é fazer uma viagem dentro de nos mesmos. Digo “nós” enquanto indivíduos. O diretor, Roberto Vignati, consegue a proeza de nos envolver, logo nos primeiros minutos de encenação. Utilizando-se de estereótipos, dois atores da raça negra, representando os papeis de Fabiano, o retirante e sua mulher Sinhá Vitória. Em oposição a esses, as outras personagens são todas de pele clara. Num contraste perfeito, enquanto se desenrola a primeira música no centro do palco, os retirantes rodeiam o palco: ele com uma trouxa, provavelmente de roupas e utensílios, nos ombros e ela com um baú na cabeça e um filho no braço. As diferenças sociais são gritantes e causa desconforto. Por vezes, queremos levantar e retirar Fabiano e Sinhá Vitória, daquela situação sub-humana.
A peça se desenrola sempre nesse contra ponto entre o proletariado, a família de Fabiano, e os burgueses, demais atores, O diretor soube explorar muito bem essa oposição ao utilizar-se de estereótipos para construir as personagens.
Outro ponto culminante é a morte da cachorra Baleia. A cena acontece em alguns longos minutos, de uma forma angustiante. Há uma preocupação exacerbada, por parte de todos, sobre a vida do animal. É uma dicotomia da vida vivida pelas personagens. Eles têm uma vida miserável, mas ao mesmo tempo mostram-se mais preocupados com o animal do que com as próprias vidas. O diretor mostra essa cena em zoom: a cachorra, representada por uma atriz, luta até o último momento pela sua vida. A luta é cruel e mexe com nossas emoções. Essa cena vem recheada de intenção pondo no mesmo patamar a luta pela vida da cachorra Baleia e a luta dos retirantes contra a miséria. Do mesmo modo que Baleia luta, estando machucada, assim os retirantes lutam, mesmo estando em condições sub-humanas. Os retirantes ou imigrantes continuam a lutar desesperadamente por um pouco de água, por um bocado de comida, por um sub-emprego para sobreviver mais um dia.
O diretor lançou mão de todos os recursos cênicos para aumentar a oposição entre as classes sociais: aquela que manda e aquela que obedece. Em vários momentos há uma oposição em relação às ações da família de Fabiano, com os atores que atuam e cantam.
Dois fatos me chamaram a atenção particularmente:
1) a morte da cachorra Baleia é bastante fantasiosa e bem explorada em cena. Já passei por essa experiência de perder uma cachorra chamada tita pelos mesmos motivos. O golpe foi certeiro e muito antes do sofrimento se estender; posso entender, então, que Graciliano Ramos põe na vida da cachorra o sofrimento e a agonia da vida do retirante, do pobre, do proletariado. Visto que mesmo identificado o problema, ou seja, a falta de condições dignas para viver, não se é possível fazer nada. Assim o sofrimento se prolonga.
2) Fabiano reclama que Sinhá Vitória tem sapato, mas não usa porque machuca o pé. Não vivi essa experiência, mas meus pais sim. Eles moravam em um sitio em Minas Gerais – meus tios ainda moram lá -, e quando tinha festa na cidade, todos faziam a caminhada a pé, descalços. Ao chegar na entrada da cidade paravam no córrego – eu conheci esse córrego -, lavavam os pés, calçavam seus sapatos e iam para a festa. Para retornar retiravam os sapatos na saída da cidade e voltavam descalços para casa. Gostei de ter ouvido isso na peça, mas isso não denota vida sub-humana, mas sim um costume, principalmente do povo que vivia no sítio.
Quanto a representação cênica, minha opinião é que os atores, com exceção de uma atriz, estavam carentes de expressões corporais. Um deles, um senhor, fazia um esforço para acompanhar os mais jovens nas cenas em grupo. Era nítido o desconforto desse ator diante da atriz melhor preparada. Mas não posso deixar de dizer que nas cenas individuais ele dominava o momento. O diretor poderia ter usado mais esse recurso, cenas individuais para esse ator especificamente. As músicas dispensam qualquer comentário. As letras são excelentes. Mesmo com a desafinação dos atores em certos momentos as canções valem a pena.
No final, o diretor justifica as falhas do espetáculo ao dizer que não recebeu recurso do governo e nem patrocínio para a montagem e completa “o espetáculo foi feito por amor à arte e a Graciliano Ramos”.
Finalmente, acho que o diretor mostrou a que veio e qual mensagem pretendia passar para o público: incomodar. E incomodou. Não é possível ver de perto aquelas pessoas miseráveis sem se comover, sem se sensibilizar. Constantemente nos deparamos com situações parecidas na televisão, ou mesmo, fora dos nossos carros. Mas naquela sala quase que intimista não conseguimos ficar imunes, mesmo tentando. Saímos do teatro com uma pergunta martelando em nossa mente: O que estamos fazendo para melhorar essa sociedade?
Vidas Secas de Graciliano Ramos
Direção de Roberto Vignati
Com Barbara Cabral, Daniel Caldini, Joselito Gaza, Mariana Barros,
Otavio Delanezza, Paulo Brito, Teca Pereira e Vicente Tutto.
Teatro Sérgio Cardoso
R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista. Bilheteria: (11) 3288-0136
Acesso a portadores de deficiência física
www.teatrosergiocardoso.sp.gov.br